Em Lisboa, o Sol já se tinha posto há algumas horas quando Eduardo deixou a noiva em sua casa, depois da viagem de regresso do Porto. Antes de sair do carro, disse Leonor:
- Portanto, tu não és pai de facto deo Tomás, mas apenas pai de direito, não é?
- Sim, docinho, é isso mesmo. A Carla explicou-te tudo como se passou, melhor do que eu seria capaz. Um dia ela telefonou-me, alterada, e pediu-me para nos encontrarmos. Contou-me que um colega da escola perdido de bêbado se tinha servido dela a seu bel-prazer, que ela nem sabia o que lhe tinha dado, mas que o mal já estava feito e que, o que era pior, ela tinha engravidado por causa disso e ele dizia não se lembrar de nada. Cá para mim, se queres saber, ele sabe muito bem o que fez, porque um homem não esquece uma coisa dessas...
- Nem bêbado?
- Se estivesse suficientemente bêbado para se esquecer, também estava demasiado bêbado para conseguir consumar o acto, é o que eu acho, não que fale por experiência própria.
- Sim, meu príncipe, já sei que és muito bem comportadinho, e é assim que eu gosto de ti...
- Mas pronto, dizia eu que ela se viu com um bebé para nascer e um pai que não se lembrava de nada.
- E por que foi que ela não fez testes de ADN para determinar a paternidade?
- Pois, foi o que eu também lhe sugeri, mas os pais dela quiseram abafar a coisa o mais possível, e, para fazer os testes, era preciso meter processos em tribunal e eles tiveram medo de que a notícia se espalhasse. Sabes como é, uma família conhecida e influente do Norte, que como tu sabes é muito mais conservador do que Lisboa, não podia dar-se ao luxo de ter uma adolescente grávida na sua pura árvore genealógica... - Eduardo pronunciou as últimas palavras da sua frase com um tom particularmente amargo. Continuou: - Aliás, acho que ela disse aos pais que nem sabia quem era o pai do filho; não sei como eles engoliram essa. O choque de verem a filha grávida aos dezasseis anos deve ter sido tal que nem reflectiram na estranheza de ela não saber quem era o pai. Afinal, a Carla nunca tinha sido do género de andar com muitos rapazes (para dizer a verdade, nunca lhe conheci nenhum namorado, mas pode ser que não me tenha contado dessas aventuras), muito menos de poder estar confusa quanto a quem seria o pai da criança. Mas pronto, ela acabou por me falar para eu assumir a paternidade, visto que a Lei Portuguesa não permite que uma criança seja registada sem pai. Na altura, eu era mais novo e inconsciente do que sou hoje e disse que sim.
- E assim ganhaste um filho sem teres feito nada por isso.
- Ora nem mais! - exclamou Eduardo.
- Está certo. Mas explica-me uma coisa: do ponto de vista legal, tu és o pai dele, não é?
- Sim, sou eu.
- E se se vier a saber que o pai biológico é outro? O Tomás passa a ter dois pais?
- Não, trâmites legais à parte, o resultado prático é que eu deixo de ser pai.
- Estou a ver...
Despediram-se com um beijo rápido e Leonor entrou em casa.
No Porto, a enfermeira da Unidade de Cuidados Intermédios notou no seu monitor o aumento da frequência respiratória de Miguel. Levantou-se e foi até à cama onde este se encontrava deitado a dormir e notou uma certa dificuldade na respiração. A enfermeira saiu do quarto e foi chamar o médico do serviço. Quando este voltou, Miguel tinha acordado e queixava-se de dores nas costas.
- Ele foi operado ontem pela Ortopedia, não foi? - perguntou o médico à enfermeira.
- Sim, senhor doutor. Tinha várias fracturas nos dois fémures e num dos antebraços.
- Pois... Acho melhor pedir umas análises e uma TAC. Vou fazer a requisição; pode ir preparando o material para colher o sangue.
Dito isto, quer o médico, quer a enfermeira se afastaram da cama de Miguel, que os chamou de volta e perguntou:
- Mas, senhor doutor, o que é que eu tenho agora?
- Ainda não sabemos, por isso é que vamos fazer as análises que lhe vou pedir e vai fazer a TAC.
- Mas deve ter alguma suspeita, não é? Eu gostava de ser informado sobre o meu problema e de saber o que me fazem enquanto aqui estou, se não for pedir muito - Miguel arrependeu-se imediatamente das últimas palavras, com medo de ser mal interpretado pelo médico, mas já estava dito, era tarde demais.
O médico franziu o sobrolho, olhou para a enfermeira e retorquiu agastado:
- Senhor Miguel, eu não lhe posso dizer o que o senhor tem, porque não sei o que é. Suspeito de que possa ser um tromboembolismo pulmonar, mas só depois dos exames é que vou ter a certeza.
- Um quê?
- Uma embolia pulmonar, já ouviu falar? O senhor foi operado, está deitado numa cama, imobilizado, tudo isso aumenta o risco de que se formem pequenos coágulos nas suas veias, principalmente nas pernas, que depois podem ir pelo sangue e encravar nos pulmões. É isso que vamos conferir com os exames que lhe vou pedir. Tem mais alguma dúvida?
- Já ouvi falar de muita gente que morreu disso...
- Não se preocupe, que nós vamos tratá-lo bem. Até já.
Miguel não falou mais e concentrou-se na sua dor. O médico e a enfermeira afastaram-se conferenciando entre si:
- Senhora enfermeira, a TAC só é feita amanhã de manhã, não é?
- Sim, senhor doutor.
- Então olhe, vou pedir também para começar já o tratamento com heparina, que é melhor não facilitar. Operado ontem, ainda por cima por Ortopedia, com este quadro... Tenho quase a certeza de que a TAC me vai dar razão. Bem, vou passar as requisições. Até já.
A dez quilómetros dali, Carla não conseguia adormecer; pensava e pensava na conversa que tiveram horas antes com a noiva de Eduardo, em que lhe explicara toda a história a respeito do nascimento de Tomás e como o primo se tornara o Tio Dado. Estava à espera duma reacção diferente da parte de Leonor. Na verdade, até lhe estava a parecer fácil demais; contara com alguma incredulidade, raiva, talvez incompreensão, mas, afinal, Leonor mostrara-se pouco surpreendida e aceitara com naturalidade a situação e, o que é mais, o desejo de Carla de manter o segredo apenas entre os três. Pensava também na pergunta de Tomás, “Mamã, porque é que os outros meninos têm um Papá e eu não”, e em como lhe responder. Não gostava de ter de mentir ao filho, mas havia mais em jogo.
